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AS MUSAS DA PORNOCHANCHADA

 

 

Por Jorge Barboza

 

Em 1970

As musas da pornochanchada… Bem, falar de pornochanchada hoje em dia, quem vai se lembrar? Nós, claro, os cinquentões cinéfilos de um momento muito especial do cinema – quando éramos adolescentes e o país sobrevivia a uma ditadura militar. O cinema, já se disse, é o retrato de um país. Será que continua sendo? Provavelmente – eu é que perdi interesse. Do cinéfilo que fui, restou a memória. Não tenho vontade de comprar um saco de pipoca e entrar numa sala escura cheia de gente que não conheço (no teatro encontramos pessoas que conhecemos)para assistir a uma ‘grande estreia’. Woody Allen, Ridley Scott, Walter Salles Jr… Ok, isso talvez seja reflexo de uma crise não tão pessoal… Crise? Mas com toda essa parafernália das superproduções hollywoodianas e a periferia que cresceu – Bollywood, cinema asiático, cinema iraniano, cinema nacional? Fortunas rolando – million dollar, baby. Não deve ser uma crise financeira, portanto – o cinema vai bem, graças a deus. Mas digamos que o cineasta inglês Peter Greenaway – que há décadas tenta reinventar esta que um dia foi chamada de ‘a sétima arte’ – tenha lá suas razões.

E não vim aqui discutir uma crise que eu nem sei se é meramente uma crise particular ou a decadência de uma linguagem. Gosto de ver televisão – ver filme na Televisão. E cine 3D é algo que já víamos naquela época – quando éramos rapazes imberbes e fazíamos cara de mal pra intimidar o bilheteiro e entrar na sala escura pra ver uma…Pornochanchada. Pois é, vim aqui pra falar desses filmes malucos – alguns sem pé nem cabeça – produzidos em sua maioria naquela famosa região do centro de São Paulo, a Boca do Lixo. E especialmente de certas inesquecíveis atrizes do cinema nacional que um dia povoaram o nosso consciente coletivo – os nossos sonhos eróticos além do desejo secreto de sermos livres.

Ainda nos anos 1970, anos difíceis de censura – e essa é uma conversa recorrente sempre que falamos desses filmes, digamos, tortos: o regime militar e a repressão política, os desaparecidos, a tortura, a censura em todos os níveis nos veículos de comunicação e no cinema, na música, no teatro –, é nessa época que surge a pornochanchada. O nome não define exatamente um estilo – é um rótulo, um rótulo comercial que trazia público ao cinema. Os filmes iam do erotismo barato à picardia – e ao erotismo existencial, ou melhor, existencialista, cheio de verborragia e mulher bonita. Muita coisa cabia na pornochanchada – mas ela tinha de ser engraçada e surpreendente, com roteiros e títulos estapafúrdios como ASuperfêmea (1973), com Vera Fischer, e Presídio de mulheres violentadas(1977), com Patrícia Scalvi.

Vera,com sua beleza farta e germânica,encantou o público exibindo-se generosamente nas formas naturais que deus lhe deu em A superfêmea– que tinha roteiro de Lauro César Muniz e Adriano Stuart e o noveleiro Sílvio de Abreu no elenco. Com produção e direção de Aníbal Massaini Neto, a fita encantou o Brasil, consagrando o estilo – a comédia erótica nacional. Vera já ganhou fama por vencer o concurso de Miss Brasil em 1969 e com esse filme divertidíssimo, de humor leve, de parentesco italiano – seguido por outras produções debochadas como Macho e fêmea, (1974), de Ody Fraga,abriu caminho para a tevê e para outras aventuras cinematográficas que lhe renderam grandes personagens, como a misteriosa Anna do fabuloso Amor estranho amor (1982), de Walter Hugo Khoury.

Morando em Maceió, eu me deliciava aos 15 anos vendo esses filmes adultos num cinema de bairro, o Ideal – onde era mais fácil ludibriar o porteiro, às vezes até adulterando a carteira de estudante para ganhar mais idade. Entre o Ideal, o Lux – outro cine periférico – e o São Luiz – este no centro de Maceió, a sala mais nobre da cidade –, eu fazia o circuito perverso do cinema nacional, arrebatado inicialmente por Vera Fischer. Em 1974, a atriz estrelou Intimidade, ao lado do marido, o ator e diretor Perry Salles, e que tinha até participação do Chacrinha – me lembro que não foi tão divertido quanto A superfêmea, nem tão surpreendente quanto Macho e fêmea, mas lá estava ela, bela como nenhuma outra, a deusa dos meus mais loucos arroubos eróticos (não é preciso dizer que eu era virgem).

De 1974 corte para 1977 – quatro anos decorridos. Em 1977, Vera foi para a tevê, firmando-se como atriz numa novela poderosa de Lauro César Muniz, Espelho mágico. Enquanto isso no cinema – no suspeito Cine Ideal –, lá estava eu embasbacado pelo encanto de uma nova e arrebatadora musa sexy: Patrícia Scalvi, protagonista do filme de Luiz Castellini e Oswaldo de Oliveira Presídio de mulheres violentadas. E olha, essa paixão foi muito mais duradora do que a que eu sentia por Vera Fischer, que, para o bem e para o mal, indo trabalhar na TV Globo, perdeu aquela aura marginal de estrela de pornochanchada – a despeito de suas incursões pelo universo rodrigueano nos filmes Perdoa-me por me traíres (de Braz Chediak, 1980) e Bonitinha, mas ordinária(idem, 1981) e por suas avassaladoras atuações no clássico perdido de Khouri Amor estranho amor(que foi filmado em 1979 e lançado em 1982 – e tirado de circulação por conta de uma ação judicial movida por Xuxa Meneghel) e em outro cânone erótico, Eu te amo (1981), de Arnaldo Jabor.

Eu era mesmo um fã empedernido do filme erótico – e. de quebra, da literatura erótica. Havia devorado boa parte dos livros de D. H. Lawrence, incluindo Mulheres apaixonadas. No sensacional O Convite ao Prazer (Khouri, 1980), o protagonista Roberto Maya, interpretando Marcelo – espécie de alterego do cineasta –, tinha, lá na estante dele, o famoso romance de Lawrence. Patrícia Scalvi, Sandra Bréa, Nicole Puzzi e Kate Lyra se revezavam naqueles sofás antigões das locações khourianas. No mesmo ano, Patrícia estrelava o filme de Carlos Reichenbach Amor, palavra prostituta – mais uma lenha na fogueira: eu estava perdidamente apaixonado por Patrícia Scalvi.

Corte para 1991. Tendo mudado para São Paulo em 1988, eu já havia conhecido muita gente de cinema, incluindo Grande Otelo, na Folha da Tarde– onde iniciara uma jornada como repórter, editor e free-lancer (entre outros sapos que você costuma engolir quando resolve seguir a carreira de jornalista)–, mas nesse ano, 1991,já na redação do semanário Shopping News,dei vazão a essa antiga fantasia pornochanchadesca e propus a pauta: “Musas da Pornochanchada”.  O cinema brasileiro estava em crise e o cinema erótico virou pornografia barata – exceto por alguns filmes mais do Khouri, que filmaria pela última vez em 1998 (As feras) e havia acabado de dirigir Forever, produção ítalo-brasileira com Ben Gazarra, Eva Grimaldi e Vera Fischer – apresentando Ana Paula Arósio. O resto era sexo explícito – bizarro, às vezes.

 

Deusa da pornochanchada

Então encontro Patrícia Scalvi num apartamento no Bixiga, decepcionada com a carreira, constrangida e sem emprego. As grandes salas de cinema do centro da Paulicéia estavam decadentes – a maior parte delas se submetera à putaria, na tela e fora dela. Patrícia continuava linda – achei-a magra, mas não foi sempre assim? Aquela mulher esguia, com ares misteriosos que me chapou no tenebroso Ninfas diabólicas(1978), de John Doo, e no adorável Amor, palavra prostituta– ali estava ela, na minha frente, me mostrando fotos e fitas de vídeo. Havia um clima de ressentimento, mas fui recebido com carinho e interesse – embora Patrícia fizesse questão de frisar, “não sou uma atriz de pornochanchada”. Afinal, o que era pornochanchada? E depois que algumas doidivanas haviam caído na armadilha do sexo explícito, enfim, ela tinha toda razão. Walter Hugo Khouri estava a algumas quadras dali pra confirmar isso – se fosse o caso, mas este é um assunto para outro artigo…

Não tenho mais a entrevista da Patrícia comigo, não me lembro sobre o que conversamos, quer dizer, discutimos a crise do cinema – e falamos não de mágoas propriamente, mas de algumas intrigas, o ego das atrizes, da doidinha da Nicole Puzzi que se lançaria como escritora em 1999, com o livro Inveja.

Eis um universo que continua me intrigando. Escrevendo este artigo, fiz algumas buscas na internet. Há dois anos, Patrícia Scalvi contava à blogueira Andrea Ormond (http://estranhoencontro.blogspot.com.br/) um pouco da rotina da Boca do Lixo: “A rua do Triunfo da década de 70 ao final de 80, nossa! Tinha ano em que se produziam 80, 100 filmes. Uma indústria – e tudo com iniciativa própria. Não havia Embrafilme, que ajudava mais o Rio, inclusive. Além de o pessoal do Rio ser considerado mais engajado, entre aspas. Ao passo que os paulistas, mais comerciais, como se dizia. Mas o fato é que os atores, na realidade, trabalhavam tanto lá quanto aqui. A Sandra [Bréa], a Sônia [Braga], a Vera [Fischer], essa gente toda estava em São Paulo e no Rio”.

Hoje, Patrícia dirige e faz dublagem de filmes e animes – coisa que, na verdade, ela sempre fez, o próprio Khouri a chamava para dirigir a dublagem de seus filmes. A atriz conta que o diretor não tinha muita paciência com o trabalho de dublagem. “A interpretação ele dirigia, mas na hora do sincronismo, ia embora fumar um cigarro.” A voz de Diane Keaton, Kathleen Turner e Angelica Huston – nas versões dubladas de tevê – é dela. Assim como da Bruxa Urasue, de Lady Helen, de Madame Pérola, de Charlotte, Luna, Megumi Takani, Princesa Igan, Rainha Cosmo e Sophie, entre outras personagens dos animes. “Anime, mangá, eles têm um público muito grande e são fãs dos dubladores”, avisa Patrícia. “Existe até uma premiação, o Oscar da dublagem, com votação na internet: o melhor filme, a melhor série etc. A gente é super querida. Vira e mexe damos palestras, em vários lugares no Brasil. Quando chegamos aos auditórios, não dá pra acreditar. Parece show de rock mesmo – é lotado de gente. Você dá um grito de guerra de qualquer personagem, os caras enlouquecem.”

 

O lado aconchegante e familiar da Boca do Lixo

Voltando à Boca do Lixo, não me lembro de Sônia Braga em nenhum filme da Boca, em nenhuma pornochanchada – ela sempre não atuou em filme no Rio e depois nos Estados Unidos? Bem, houve uma pornochanchada carioca e o diretor Antônio Calmon foi um de seus baluartes, com filmes como Gente fina é outra coisa(1976), com Lucélia Santos, e Terror e êxtase, com Denise Dumont. Sônia atuou no primeiro longa de Calmon – hoje autor de telenovela –, O Capitão Bandeira contra o Doutor Moura Brasil, mas era filme ligado à estética do cinema marginal – nada a ver com pornochanchada.

Quem atuou em pornochanchada, no clássico Cada um dá o que tem (1975), foi Eva Wilma – sim, ela mesma, dirigida pelo marido John Herbert num dos três episódios do filme, que também foi dirigido por Adriano Stuart e Sílvio de Abreu. Mas na cena de nudez em que a atriz apareceria de costas, Eva foi dublada.

Em janeiro de 1994, eu entrevistava Sílvio de Abreu para o Shopping News. O hoje consagrado autor de telenovela falou um pouco da Boca e dessa coisa do erotismo dos filmes e do recato de muitas de suas atrizes – afinal, elas não eram bem assim Rita Cadillac.  “Eu estava lá todo dia. Olha, por mais que esses filmem pudessem parecer assim livres, por mais que eles pudessem parecer que eram feitos numa atmosfera de sacanagem plena, não eram. Eram extremamente familiares. Acho até que, das atrizes de pornochanchada, a mais família que eu conheci era Helena Ramos, que fez Mulher objeto[dirigido por Abreu em 1981]. Se você a vê na tela, parece que é uma mulher livre, sensual… Não era nada disso, era uma dona de casa muito preconceituosa. A mesma coisa era Matilde Mastrangi, que também era de uma volúpia na tela e pessoalmente, não. Em Cada Um dá o que tem a gente escolheu as atrizes através das revistas Ele e Ela e Playboy – todas as moças bonitas ali a gente foi chamando. Elas vinham, faziam os testes… O segundo filme da Matilde ela entrava nua e saía pelada. Mas quem descobrimos nas páginas das revistas foi Alcione Mazzeo, ela saiu da Ele e Ela.”

Sobre esse lance do ambiente permissivo ou familiar da pornochanchada, em 2008 Nicole Puzzi falava de um ambiente aconchegante no set, dando o seguinte depoimento ao jornalista Alex Solnik: “Era extremamente profissional. Entre pornochanchada, televisão e teatro, a pornochanchada foi o ambiente mais puro em que eu convivi. Mais puro, mais amigável – estou falando de toda minha carreira. Dificilmente alguém se excitava quando a gente estava em cena. Se alguém ficava excitado, saía. O produtor, entre eles o Antônio Galante, que foi o maior produtor de pornochanchadas, ele foi seminarista. Era um homem rígido, com esposa, tudo direitinho. A orientação era a seguinte: ficou excitado, sai de cena, não demonstra. Se demonstrasse, era demitido. Então tinha uma regra que não era falada. Não existia essa história do teste do sofá. Você saía com quem bem entendesse. Eu nunca tive de sair com ninguém pra conseguir trabalhar. Eu nunca fui cortada de filme, como em novelas, porque eu não saí com um cara.”

Mas é isso. O leitor então que procure suas referências e preferências – há muito pouco filme em vídeo, mas dá para garimpar alguns desses clássicos citados aqui. Foi-se o tempo em que eu ia ao cinema – escrever este artigo deu vontade de rever alguns filmes, conhecer outros que passaram batido. Vamos ver o que dá pra baixar por aqui. Adios.

 

Jorge Barboza é jornalista, diretor e editor do site alagoasboreal.com.br.

 

 

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