Bate-papo com Jorge Cardoso
Corpo, memória e comunicação nos circuitos musicais do Atlântico Sul
por Ruanne Baião e Tailane de Oliveira | mestrandas do PPGCOM
Já imaginou a pesquisa como um navio sensível, capaz de cruzar oceanos e costurar memórias que o tempo tentou separar?
Nesta entrevista, o professor Jorge Cardoso nos convida a acompanhar o percurso de seu pós-doutorado no PósAfro (UFBA), programa que conecta a UFRB e a Universidade de Bayreuth (Alemanha), onde investiga os trânsitos musicais entre Brasil e Moçambique a partir do rap contemporâneo.
Ancorada em referenciais consolidados dos estudos da diáspora africana, da etnomusicologia e da comunicação, sua pesquisa compreende a música como tecnologia social: um campo onde ancestralidade, corpo e memória operam como vetores de criação, circulação e resistência. Estudos apontam que práticas musicais diaspóricas não apenas preservam heranças culturais, mas também produzem novas formas de cooperação, pertencimento e inovação simbólica.
A seguir, você confere esse encontro instigante, onde ciência e sensibilidade caminham no mesmo compasso.
Por que o Pós-Afro foi a escolha para essa etapa de formação acadêmica?
A pesquisa teve início em março de 2025, período em que estou realizando estágio no Pós-Afro/Centro de Estudos Afro-Orientais da UFBA. O programa integra um projeto mais amplo, desenvolvido em parceria com a UFRB e a Universidade de Bayreuth (UBT), na Alemanha. Como o meu supervisor também faz parte dessa iniciativa, compreendi o estágio como uma estratégia para fortalecer os vínculos com um parceiro brasileiro.
O projeto que coordeno se dedica aos estudos oceânicos, com foco no Atlântico Sul e no Índico, buscando compreender a diáspora negra a partir das relações entre a Costa Oeste da África e a América Latina, bem como entre a Costa Leste africana e a Ásia. No âmbito do meu pós-doutorado, investigo os trânsitos musicais contemporâneos entre Brasil e Moçambique, com especial interesse nas parcerias construídas no campo do rap. Mais especificamente, analiso a colaboração entre o DJ brasileiro Caíque e o rapper moçambicano Azagaia.
A experiência no Pós-Afro tem sido extremamente produtiva e acreditamos que poderá se desdobrar em novas e importantes cooperações entre o Pós-Afro e o PPGCOM/UFRB.
Pensar a partir de uma perspectiva afrodiaspórica é também pensar a partir da memória e do corpo. Você concorda com isso? De que forma o corpo e a ancestralidade se tornam categorias de pensamento e não apenas de identidade?
Acredito que o projeto dialoga diretamente com as discussões sobre corpo, memória e ancestralidade. Quando tratamos da diáspora africana e de territórios distintos, estamos também falando de trânsitos de saberes que não se limitam aos códigos textuais. Muitos desses conhecimentos se manifestam por meio das performances corporais e da oralidade, o que Leda Maria Martins conceitua como oralitura. Nesse sentido, pensamos os trânsitos transoceânicos a partir de uma dimensão que envolve corpo e memória oral.
Embora o meu foco de pesquisa esteja na música em um contexto contemporâneo, há colegas que investigam outras linguagens, como a poesia e a produção literária em diferentes territórios do Atlântico Sul e do Índico. Uma dessas pesquisas, por exemplo, acompanha a obra da escritora Ananda Devir, das Ilhas Maurício, situadas entre a África e a Ásia, analisando como as relações com o mar atravessam a literatura produzida nesse território.
Esse olhar é particularmente instigante, pois evidencia práticas, interditos e tabus presentes na relação de povos africanos com os oceanos. No Brasil, por exemplo, em algumas religiões de matriz africana, há momentos em que determinadas pessoas ficam impossibilitadas de cruzar o mar. Essas restrições revelam como práticas religiosas e culturais dos povos dos quais descendemos conseguiram sobreviver e se reconfigurar ao longo do tempo. Tudo isso se articula diretamente às dimensões da memória, do corpo e da ancestralidade, que podem ser mapeadas nas diferentes camadas e expressões dessas experiências.
Como se dá as conexões entre comunicação, raça e cultura dentro da sua pesquisa?
No meu plano de trabalho, procuro estabelecer uma leitura das relações entre Brasil e Moçambique a partir dos trânsitos transoceânicos que se iniciam no período colonial, mas que adquirem novas configurações no século XXI. A parceria entre Caíque e Azagaia, por exemplo, ocorre em um contexto de hiperconectividade, sendo viabilizada, em grande medida, pela internet. No entanto, é importante destacar que as tecnologias não são neutras, como muitas vezes se supõe.
Elas também operam como marcadores sociais da diferença, uma vez que os grupos dominantes historicamente desenvolveram e controlaram as técnicas consideradas legítimas para seu uso. Nesse sentido, há uma relação direta entre tecnologia e branquitude. Muitas técnicas de produção características de povos tradicionais não são reconhecidas como tecnologia, mas classificadas como artesanato. Contudo, em termos rigorosos, tratam-se igualmente de tecnologias: povos indígenas, por exemplo, desenvolveram instrumentos sofisticados para pesca e caça, assim como os povos bantus em seus próprios contextos.
É fundamental compreender a tecnologia a partir das políticas da diferença e da alteridade. No caso específico do rap, o DJ Caíque participa do processo produtivo com Azagaia ao disponibilizar beats e samples, algo possibilitado por essa lógica hiperconectada do tempo presente. A música é de Azagaia, enquanto Caíque contribui com a batida e com a circulação da obra nas redes do rap e da produção musical.
Isso se torna possível, em grande medida, porque o Brasil está mais inserido no mercado musical global do que Moçambique. Trata-se de um país com um projeto desenvolvimentista mais consolidado e em diálogo constante com os países do Norte Global, não apenas em uma lógica histórica de exploração, mas também de imposição de aspectos de sua própria produção. É a partir desse entrelaçamento entre raça, comunicação e tecnologia que tenho pensado e desenvolvido a minha pesquisa atual.
Pensando na estrutura da pós-graduação, quais são as barreiras invisíveis que ainda afastam ou silenciam pesquisadores negros?
Acredito que essas barreiras já foram ainda mais invisíveis e, nos últimos anos, têm se tornado mais evidentes, mesmo que ainda exista uma capacidade limitada de transposição. Hoje, a principal barreira está relacionada ao acesso de professores e professoras ao ensino superior. Embora já tenhamos um número expressivo de estudantes negros e negras ingressando na universidade e avançando da graduação para a pós-graduação, essa presença ainda não se reflete de forma proporcional nos cargos docentes, especialmente nos cursos mais tradicionais, historicamente associados à branquitude.
Ao mesmo tempo, percebo que tanto as políticas de ação afirmativa quanto o ingresso pelo serviço público vêm contribuindo para ampliar a presença de pessoas negras em cargos institucionais. Esse movimento tem impactado diretamente a produção de conhecimento, com bibliografias cada vez mais atravessadas por pensadoras e teóricos negros, o que considero extremamente significativo.
Esse avanço é fruto do trabalho contínuo das militâncias e do amadurecimento dos movimentos sociais, que têm impulsionado uma discussão bibliográfica mais decolonial. Nem sempre foi assim. Na minha própria formação, por exemplo, esse debate era praticamente inexistente. Esse aprendizado veio depois, a partir das orientações, das trocas com outras pessoas e das leituras que fui construindo ao longo do tempo, especialmente no campo da comunicação, de forma bastante recente.
Como os Estudos Étnicos e Africanos dialogam com a sua trajetória em comunicação? Quais pontes você espera construir entre Pós-Afro e PPGCOM a partir dessa experiência?
Isso é algo curioso. Sou filho da periferia de Salvador, nascido no bairro do Uruguai, e, socialmente, sou lido como branco, sobretudo no território onde cresci. Ao longo da vida, tive acesso a privilégios que muitos amigos meus, negros retintos, não tiveram. Nunca fui abordado pela polícia, por exemplo. Ainda assim, mesmo atravessado por esse contexto, não tive, durante a universidade, acesso a debates dessa natureza. Nos anos 2000, o campo da comunicação era profundamente eurocêntrico.
O meu processo de inserção e letramento nos estudos étnicos se deu, de forma significativa, a partir da orientação de uma doutoranda, Hellen Barbosa, hoje professora da UNEB. Foram essas experiências de orientação que provocaram uma reconfiguração no meu percurso de pesquisa. A partir daí, passei a incorporar de maneira mais consistente as dimensões étnico-raciais nos meus estudos, como no projeto desenvolvido na UFRB sobre rock e rap em diálogo com raízes escravocratas e ameríndias, ou ainda na pesquisa sobre a “Vovó do Mangue”, em Maragogipe, que aborda essas relações de forma sensível e situada.
Esse interesse pela abordagem étnico-racial foi sendo incorporado gradualmente aos estudos que eu já realizava. Nesse sentido, espero que possamos ampliar o diálogo entre o Pós-Afro e o PPGCOM, trazendo mais professores do Pós-Afro para atividades no programa e incentivando a participação de estudantes de mestrado e doutorado nessas experiências. Atualmente, estou ministrando um curso sobre música transatlântica e transoceânica no Pós-Afro, e é interessante perceber como os interesses dos estudantes se aproximam muito daqueles que temos no nosso programa. É bastante provável, inclusive, que alguns alunos especiais façam seleção para o PPGCOM, o que evidencia a forte convergência entre o que o Pós-Afro desenvolve e aquilo que nós também produzimos.

