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Bate-papo com Fagner Fernandes

Desafios e aprendizados da docência na pós-graduação

por Brunna Arrais | mestranda do PPGCOM

 

Um desafio antigo, encarado como uma espécie de bicho-papão que ronda o caminho daqueles interessados na área de pesquisa acadêmica, é a prática em sala de aula, uma etapa inevitável e transformadora na formação de mestres e doutores. Para muitos discentes da pós-graduação, estar diante de uma classe de alunos, sob a tarefa hercúlea de transmitir o saber, é o primeiro contato real com o exercício da docência, acionando tanto inseguranças quanto descobertas valiosas. 

Nosso entrevistado, o discente Fagner, parte do programa de Pós-Graduação em Comunicação (PPGCOM-UFRB), vive essa experiência há dois semestres, lecionando componentes curriculares no Centro de Artes, Humanidades e Letras (CAHL) em Cachoeira, na Bahia. Natural do território de São Félix e egresso da mesma instituição em que leciona, na qual se graduou no curso de Artes Visuais, Fagner ocupa o papel recém adquirido de docente. Como convidado desta conversa, ele compartilha algumas reflexões acerca dos desafios e aprendizados envolvidos na experiência da docência e as marcas deixadas por ela em sua trajetória de formação no mestrado. 

 

Como foi a experiência da docência enquanto ainda está cursando o mestrado no PPGCOM?

A experiência é muito boa, realmente única. Mais do que uma vivência pontual, para mim foi uma grande oportunidade: a de experimentar a universidade para além da sala de aula, indo além do lugar de estudante, de egresso do curso e, agora, de mestrando do PPGCOM. É uma experiência desafiadora, mas também marcada por alegria.

Eu não tinha a obrigação de cumprir o tirocínio, atividade exigida apenas para bolsistas, mas escolhi passar por essa etapa. Nesse percurso, surgiu também a questão do concurso, que decidi fazer já pensando na possibilidade de me tornar professor da UFRB. Esse interesse pela docência nasceu justamente no programa: estar no PPGCOM, cursar o mestrado, foi o que me deu essa visão.

Conciliar o mestrado com a docência tem seus desafios. Trabalho durante o dia, estudo em horários alternativos e dou aula à noite no CAHL. É cansativo, exige muito, mas é uma experiência muito bem-vinda e interessante. No fim de semana o corpo sente, mas há também um conforto, uma alegria. Poder viver essa experiência dentro do programa e atuar no mesmo curso em que já fui estudante é algo profundamente gratificante.

 

Quais foram os principais desafios que você enfrentou em sala de aula nesse início de trajetória como docente? Quais estratégias você utilizou para contornar essas dificuldades?

Na verdade, esses desafios ainda existem. No início, o maior deles é a insegurança, a falta de maturidade e de experiência em sala de aula para lidar com as adversidades. Enquanto estudante, temos outro tipo de responsabilidade; já como professor, desde o primeiro dia, percebemos que estamos lidando com a vida das pessoas. São muitas realidades que coexistem dentro da sala de aula e também para além dela.

O principal desafio é se ver ali. Para mim, enquanto estudante de mestrado, homem negro e pertencente ao território, ocupar esse lugar já é, por si só, um desafio. A melhor forma que encontrei para lidar com isso, com minhas questões e com as do outro, é me permitir viver a experiência como troca, e não como uma relação hierárquica. Quando essa relação parte do afeto, da conexão com as pessoas, a troca de conhecimento acontece.

É esse espaço que venho construindo em sala de aula, pelo menos enquanto eu permanecer professor. O desafio está em se reconhecer, encarar esse lugar e tentar mudar a lógica da universidade, fazendo da sala de aula, e da própria instituição, um espaço de convivência e bem-estar. Porque não precisa ser ruim. Embora muitas vezes seja, a universidade não precisa ocupar esse lugar. A estratégia é essa: conectar, criar afetos e relações de forma espontânea, perceber quem está aberto ao diálogo e construir o conhecimento de maneira coletiva.

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Quais os maiores prazeres que encontrou nesse processo de se tornar professor em plena formação acadêmica?

Os prazeres estão aqui - aponta para a turma. Estão nas pessoas com quem convivo diariamente: a turma, a Bruna, o filho dela que também participa das aulas, os estudantes, os professores e meus colegas do PPGCOM. Essa experiência no programa, com um formato mais acolhedor em sala de aula, me permitiu construir uma ponte com a graduação.

Na graduação, eu não vivi a mesma experiência que tive no mestrado. Por isso, fazer essa ponte se torna algo muito significativo, pois consigo levar para a sala de aula parte do que vivi no programa. Em alguns momentos, isso acontece de forma proposital, por meio de estratégias que meus professores utilizaram conosco, ajudando a construir uma prática mais sensível e acolhedora.

O que há de mais prazeroso nesse percurso é o contato com as pessoas, a troca de experiências e de vivências. Como professor substituto, tive a oportunidade de atuar com muitas turmas e desenvolver diversas atividades, como oficinas, ações de extensão e viagens. Tudo isso me permitiu exercer a docência com reciprocidade, afeto e alegria, e é exatamente isso que me motiva a seguir na carreira e na vida acadêmica.

 

De que forma sua pesquisa no PPGCOM dialoga com a prática em sala de aula?

questão racial, mas também parte do desejo de se imaginar, e de se construir, em um lugar melhor, seja para pessoas negras ou para quem pertence a grupos historicamente minorizados. Por meio da pesquisa, por exemplo, conseguimos nos enxergar em uma dimensão maior, para além dos limites que muitas vezes nos são impostos.

Procuro levar essa reflexão para a sala de aula, estimulando que as pessoas se vejam em um lugar melhor do que aquele em que acreditam já estar. Esse processo aconteceu comigo: foi uma descoberta, um reconhecimento de mim mesmo enquanto homem negro dentro do espaço acadêmico. As discussões sobre raça, letramento, os autores, as metodologias e um conteúdo programático mais voltado para questões sociais vieram junto com o curso.

A partir disso, consegui construir pontes e diálogos com os conteúdos já presentes no curso de Artes Visuais, quase como um exercício de tradução do que venho aprendendo e elaborando no mestrado. Isso se torna fundamental, porque, no fim das contas, a pesquisa é a base da atuação em sala de aula. Tento sempre partir do que os estudantes já trazem, seus conhecimentos, vivências e práticas, e relacionar isso com as minhas experiências, buscando construir um lugar mais interessante, um lugar melhor, onde todos possam existir, dentro da universidade, no território ou fora dele.

 

Você é filho do território e formado na UFRB. Como é ocupar agora o lugar de professor na mesma instituição em que se formou?

Sou natural de São Félix e tive a maior parte da minha criação em Muritiba. Integro a terceira turma do bacharelado em Artes Visuais, entre 2012 e 2016, e hoje atuo no mesmo curso em que me formei, meus antigos professores agora são meus colegas. Ser do território é, por si só, um grande motivador. Carregamos a responsabilidade de ser o primeiro da família a entrar na universidade, o primeiro a cursar um mestrado. O primeiro é importante, mas não pode ser o único.

Seguir na vida acadêmica tem tudo a ver com o território, com a comunidade e com o lugar de onde venho. Não apenas com a minha família, inclusive meu filho, que completou cinco anos em novembro, mas com as pessoas, os amigos, aqueles que me conhecem e reconhecem esse vínculo com o território e a escolha consciente de permanecer na UFRB. Por muitos anos, a UFRB foi minha principal referência de universidade. Já estudei em outras instituições, mas escolhi a UFRB, minha vivência acadêmica sempre foi aqui, este é o meu território.

Morei em São Paulo e em outros estados, mas escolhi voltar. Lembro de um professor que dizia: “esse lugar é de vocês, ocupem”. Na época, eu não compreendia totalmente; achava que faria a graduação e iria embora. Com o tempo, percebi que ficar também é um gesto potente, porque abre caminhos para que outras pessoas possam seguir. Permanecer no território é fundamental para que possamos fazer pesquisa, que é o papel do PPGCOM, articulada à cultura local, às vivências e às pessoas daqui, deixando um legado para quem ainda vai chegar.

Em Muritiba, já existe outra percepção sobre o que é a UFRB, e levo isso comigo como um processo de tradução do que é a universidade e das possibilidades que ela oferece. Não é preciso ir embora para se formar, embora ir também seja legítimo. Quem vem de fora é sempre bem-vindo; o intercâmbio e a troca são essenciais. Para mim, ficar e fazer parte da UFRB é central. Sou egresso do curso, estudante do PPGCOM, docente e técnico da universidade. Se não fosse a UFRB, não sei qual teria sido o meu destino. Sou profundamente grato a esse espaço e ao fato de a universidade ter chegado até aqui, porque isso transformou completamente a minha vida.

 

Pensando no futuro, como essa vivência na docência tem influenciado seus planos profissionais e acadêmicos?

É seguir. Pretendo fazer o doutorado aqui mesmo e, se possível, permanecer. Sei que, em alguns momentos, as linhas de interesse podem não se alinhar completamente, mas a intenção é dar continuidade, talvez não nesta chamada, mas na próxima. Agora, com a finalização do mestrado e a atuação como professor, seria impossível conciliar tudo. Esse tempo é necessário para organizar a cabeça e o percurso.

Ainda assim, esse período de docência, de vivência no PPGCOM e de retorno ao território já desenhou algo muito claro para mim: ficar aqui e seguir. Esse é um anseio pessoal que, curiosamente, também é compartilhado pelos meus alunos. É até curioso lembrar que colegas da graduação já diziam que eu seria professor da universidade, enquanto eu insistia que aquele lugar não me cabia. Esse contraste acabou me motivando a romper barreiras, não apenas como projeto de vida, mas como um sentimento profundo de que permanecer aqui também é um compromisso.

A UFRB faz parte do território; ela transformou as dinâmicas das cidades do Recôncavo. Não consigo vê-la separada desse contexto, a universidade é o próprio território. Assim, permanecer passa, inevitavelmente, pelo caminho acadêmico: fazer o doutorado, prestar concurso e continuar atuando como professor. Minha continuidade é essa: seguir pesquisando a partir do território, fazer o doutorado e permanecer na universidade.

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