Bate-papo com Regiane Oliveira
De Cachoeira para Barcelona: Regiane Oliveira compartilha como o pós-doc está ampliando horizontes de pesquisa
por Juliana e Luana Oliveira | mestrandas do PPGCOM
O pós-doutorado representa uma etapa de aprofundamento que permite ao pesquisador consolidar sua produção científica, ampliar redes de colaboração e contribuir de maneira ainda mais significativa para o avanço do conhecimento em sua área. Neste contexto, o pós-doutorado realizado fora do país ganha um papel estratégico: além de enriquecer o repertório acadêmico, proporciona vivências culturais e científicas que refletem diretamente na prática docente.
Nesta entrevista, conversamos com Regiane Oliveira, pós-doutoranda da Universidade de Barcelona, que compartilha os desafios, conquistas e aprendizados dessa experiência.
Quais são os temas centrais da sua pesquisa de pós-doutorado e de que maneira eles dialogam com os debates contemporâneos na área da comunicação?
Minha pesquisa se intitula “Arte e cultura callejera: as visualidades da precariedade e a semiose da urbe”. Trata-se de uma investigação que busca apreender como a condição precária se apresenta no espaço urbano por meio de distintas visualidades, e de que modo elas intervêm na própria configuração da cidade.
Para contextualizar, parto sobretudo das discussões de Judith Butler, quando ela aponta que a precariedade é uma condição inerente à existência. Segundo a autora, todos os seres compartilham algum grau de precariedade, uma vez que viver implica, direta ou indiretamente, estabelecer relações de interdependência com outros seres. Essa seria, portanto, uma precariedade constitutiva do existir. No entanto, Butler também diferencia essa dimensão daquilo que ela chama de condição precária, que é deliberadamente imposta a determinados sujeitos, com o objetivo de destituí-los das condições mais elementares de vida.
O meu intuito é justamente compreender, na constituição de diferentes cidades, como essa condição precária se manifesta por meio de visualidades e como ela intervém na redefinição do próprio espaço urbano.
A cidade, cada vez mais, tem sido estudada a partir de uma perspectiva comunicacional. Evidentemente, esse olhar não se confunde com o do urbanismo. Trata-se, antes, de apreender a dimensão comunicativa da cidade. Ao trabalhar com a questão das visualidades, opero dentro de um campo dos estudos da comunicação, buscando compreender como essas visualidades redefinem a cidade, inclusive porque elas implicam a constituição de novas formas de comunicação.
Aqui, a comunicação é entendida, antes de tudo, como um processo atravessado pelo ruído, mais do que por qualquer ideal de transparência ou linearidade.
O que te levou a escolher Barcelona para essa etapa do seu percurso?
Eu tinha muito interesse em ter contato com o professor Manuel Delgado, da Universidade de Barcelona, que é uma referência importante na área de conflitos urbanos. Ele coordena um grupo de pesquisa voltado para essa temática e também ministra uma disciplina de pós-graduação sobre conflitos urbanos, que era algo que eu tinha muito interesse em cursar.
Infelizmente, a disciplina só começa na segunda quinzena de janeiro e eu retorno em fevereiro. Ainda assim, os diálogos que temos tido com o professor Delgado têm sido muito importantes. Eu já conhecia e já havia lido muitos de seus textos, mas o contato direto, aqui, tem sido especialmente rico, tanto com ele quanto com as pessoas do grupo de pesquisa.
Além disso, esse período em Barcelona também se conecta a uma experiência anterior. Em 2019, realizei um pós-doutorado em Madrid, na Universidade Complutense, quando desenvolvi uma pesquisa sobre a cidade a partir de um bairro específico do centro, o Lavapiés. Esse trabalho resultou na publicação de 9 artigos. Depois de vir para Barcelona já voltei a Madrid duas vezes e escrevi um novo artigo, que será publicado no dossiê Enlaces Urbanos, da revista Logos (UERJ), a partir do que encontrei nesse retorno e em diálogo com o que eu já conhecia daquele território.
Então, essa escolha passa por vários interesses: o interesse por Barcelona, o desejo de trabalhar com o professor Manuel Delgado, mas também a vontade de retornar a Madrid para revisitar o bairro de Lavapiés e refletir sobre como aquele espaço se configura hoje, depois de seis anos.
Como a experiência internacional em Barcelona tem contribuído para ampliar ou ressignificar os rumos da sua pesquisa?
Essa pesquisa é uma pesquisa ampla, que pretende explorar diferentes cidades. Aqui em Barcelona, delimitei como objeto de estudo um bairro central chamado El Raval. Ele se diferencia muito de outros bairros da cidade por ter um forte histórico operário e por ser um território eminentemente marcado pela imigração, sobretudo árabe, paquistanesa e indiana.
Esse contato tem sido muito interessante para mim porque, pela primeira vez, estou me deparando diretamente com a problemática da imigração e com a forma como ela constrói visualidades no espaço urbano, algumas relacionadas às condições de precariedade, outras não. Isso tem me permitido observar como bairros com predominância de populações migrantes constroem determinadas visualidades. Algumas marcadas pela precariedade, outras não, mas todas atravessadas por tensões sociais e simbólicas. Ao mesmo tempo, esse campo tem me colocado desafios importantes, sobretudo para compreender as configurações específicas que o racismo assume no contexto europeu, especialmente em relação à chamada imigração magrebina, oriunda do norte da África. Esse enfrentamento tem sido, para mim, muito instigante.
Sobre os impactos diretos nas abordagens e na metodologia: nas abordagens, com certeza. Aqui tenho me deparado com uma bibliografia consistente sobre imigração e tenho buscado, especialmente, autores que também são imigrantes e que discutem a dimensão do racismo nesses contextos. Em relação à metodologia, nem tanto. Continuo trabalhando com o processo das derivas, conforme proposto pela Internacional Situacionista, além de muitos registros visuais.
O campo, no entanto, vai nos surpreendendo e, à medida que isso acontece, ele nos impõe novos desafios. Um dos principais, para mim, tem sido justamente pensar em visualidades da precariedade em um contexto no qual todos são imigrantes, mas nem todos estão em condição precária. Esse tem sido um dos grandes desafios da pesquisa neste momento.
Quais os movimentos você tem enxergado na cidade que estão contribuindo para a sua pesquisa?
Barcelona é uma cidade extremamente turística. Em 2025, foi divulgada uma pesquisa que indicou que Barcelona passou Paris e se tornou a cidade com maior incidência de turistas por quilômetro quadrado. Esse turismo se concentra sobretudo na região central, onde estão os principais pontos turísticos, como a Sagrada Família, o Passeig de Gràcia, o Bairro Gótico e as regiões de Santa Catarina, Ribeira e El Born.
Toda essa área central é fortemente marcada pela presença turística, e o único bairro que foge dessa lógica é justamente o El Raval. Por ser um bairro imigrante, ele aparece no discurso corrente como perigoso, o “problema” da cidade. Então, existe esse contraste muito forte: uma cidade pautada pela lógica do espetáculo, da visibilidade turística, e, muito próxima a essa região altamente espetacularizada, um bairro que é estigmatizado.
Ao mesmo tempo, para nós que somos latino-americanos - e isso é algo que, inclusive, já conversei com meu supervisor - esse bairro considerado perigoso é percebido por nós como relativamente seguro. Vindo de contextos marcados por desigualdades profundas, fruto de processos coloniais, essa percepção se desloca bastante. Esse choque de leituras também tem sido um desafio importante para a pesquisa.
Pensar um bairro imigrante, com histórico operário, situado ao lado de regiões extremamente turísticas, têm sido central para a investigação. Estamos desenvolvendo um texto justamente para discutir o processo de turistificação em Barcelona. Em 2024, por exemplo, ganhou visibilidade um movimento de resistência ao turismo, a ponto de grupos utilizarem pistolas de água para molhar turistas nas ruas. Nós também nos aproximamos dessas reuniões para compreender o que esses grupos pensam e como se organizam.
Meu companheiro está aqui comigo, e estamos trabalhando juntos na escrita de um texto que discute esses processos de espetacularização do turismo e como esses supostos movimentos de resistência também acabam produzindo uma lógica espetacular. Esse convívio entre um bairro periférico, imigrante e estigmatizado, e regiões altamente turísticas, frequentadas por estrangeiros e de grande fluxo de pessoas, tem se mostrado um campo de investigação muito instigante.
De que forma você espera que os resultados do seu pós-doutorado reverberem na sua atuação docente e nos projetos acadêmicos da sua instituição de origem?
Eu já consegui chegar a alguns resultados e agora estou no processo de sistematização dos dados e de análise. Neste primeiro momento, já há uma estrutura de textos organizada, e a etapa seguinte é a elaboração propriamente dita, com a consciência de que não será possível esgotar a discussão dos resultados num único trabalho, tampouco no período de realização do estágio pós-doutoral.
Isso aconteceu também no meu primeiro pós-doutorado, realizado em Madrid. Naquela ocasião, escrevi nove artigos, mas apenas três foram produzidos durante o período efetivo do pós-doc; os demais foram desenvolvidos posteriormente. Agora, já tenho alguns textos estruturados. O primeiro trata de como os processos de expulsão produzem espaços de memória e de precariedade na cidade. O segundo aborda a questão da violência policial, que é muito forte no bairro, e discute como essa violência cria determinadas visualidades no espaço urbano. O terceiro texto se debruça sobre a precariedade laboral e sobre como ela também contribui para a constituição de visualidades no bairro.
Há ainda um outro texto já pontuado, que não está tão diretamente relacionado ao El Raval, mas dialoga com a dimensão do turismo. Por enquanto, esses são os artigos que estão estruturados. Existe também a possibilidade de realizar uma cartografia, estabelecendo relações entre o El Raval, em Barcelona, e o bairro de Lavapiés, em Madrid, a partir da pesquisa que realizei anteriormente.
Agora, o foco é dar andamento a esses trabalhos e avançar para a etapa de finalização. Parte desse processo ainda será realizado no Brasil, pensando as visualidades da precariedade no Recôncavo, em Salvador, e na cidade de São Paulo.
Pensando nos próximos passos, quais são suas perspectivas para dar continuidade ao diálogo com os pesquisadores e instituições que conheceu durante o pós-doutorado?
Ainda não. Meu supervisor, o professor Manuel Delgado, está em seu último ano na universidade e se aposentará em 2026. No entanto, existe a possibilidade de desenvolver um trabalho com um colega dele, a quem fomos apresentados aqui na universidade. Trata-se de um professor que realizou sua pesquisa de doutorado no Brasil.
Já tivemos uma primeira conversa para pensar a possibilidade de um trabalho conjunto. Ainda estamos em diálogo, mas é algo que pode vir a se configurar como uma parceria futura.

